Meu ponto de vista

(prefiro a utopia de uma escola melhor ao pensar que nada pode ser resolvido)

Quando eu era criança tudo o que eu queria era poder ver as pessoas, os animais, as plantas, as cores, mas nunca foi possível. Sempre fui um garotinho muito diferente das outras pessoas por não enxergar, mas essa diferença era um tanto negativa quando criança, eu não conseguia e não podia fazer o que as outras pessoas faziam, então me sentia um estranho e as pessoas só me consideravam mais um deficiente.

Chegou o dia de ir à escola, mas eu tive que ir pra uma escola diferente da que as outras crianças costumam freqüentar, fui para um Centro de Ensino Especial e tinha todo um atendimento diferenciado, fui alfabetizado, aprendi a leitura e escrita em braile e assim foi o início de minha formação até ir para o Ensino Médio em uma escola que chamavam de normal.

Nessa escola nova tive uma experiência muito interessante, pois tive a oportunidade de estar ao lado de pessoas de todos os jeitos, já que a escola que eu estudei era para cegos, pessoas com baixa visão e esse tipo de dificuldade. O importante de estar nessa nova escola  foi passar por momentos que eu passava e viria a passar no mundo lá fora, enfrentando dificuldades e problemas todos os dias.

Mas a escola inclusiva tinha problemas demais para mim e para os outros alunos que estavam lá para a inclusão. Para mim era difícil até mesmo me locomover, pois o chão tinha buracos, vãos e outros problemas que me faziam quase cair algumas vezes. Também era difícil na hora das leituras, pois os professores me passavam mais livros de tintas e não de braile, era uma complicação.

Conheci ali mesmo uma menina, Ana, que também era diferente, mas com outra condição; ela era cadeirante, podia ver, mas não podia andar e também enfrentava os problemas da inclusão, as chamadas barreiras arquitetônicas. Viramos amigos e começamos a procurar maneiras de mudar isso, pois nós podemos fazer também diferença.

Então, me unir junto com outros alunos da inclusão, buscando por melhorias, afinal, eu sempre acreditei que eu pudesse fazer a mudança e mostrar o que é melhor para mim, assim como os outros. Com a ajuda de nossos pais, amigos e alguns professores conversamos com a direção em busca de mudanças, procurando boa estrutura e melhores materiais para nossa formação.Mas não foi uma luta simples, pois envolvia política, financiamento e mudança de consciência das pessoas, muitas achavam que não éramos capazes de dizer o que era melhor para nós.

Com muita luta e desafio conseguimos as primeiras mudanças, uma máquina braile para a escola, uma reforma no chão, rampas de acesso foram feitas e as que existiam melhoradas, os professores fizeram curso de libras, para atender melhor os alunos mudos. Ao observarem essas mudanças que reivindicávamos com tanto ardor, vieram novas mudanças até na concepção dos professores sobre a gente, pois foi a partir dessa nossa luta que perceberam nossa capacidade de fazer as coisas, perceberam que não somos passivos e incapazes, e começaram a nos incluir nas diversas discussões sobre como melhorar essa escola. Depois disso os professores nos incentivaram a atuar de verdade no mercado e em nossa vida social e política, aprendemos a não ignorar, mas driblar nossas dificuldades, e usar nossas “limitações” a nosso favor .

Mas isso foi só o começo, ainda existe muita coisa e muitas outras escolas precisando desse tipo de engajamento por parte da comunidade escolar, para serem melhoradas, as limitações do acesso de ensino a todos não é somente por parte das estruturas, mas sim, às vezes, da concepção de que somos limitados. Essa é a principal barreira que temos que superar.

Acredito que assim que percebem nossa capacidade, passarão a nos respeitar de verdade. Sem esse respeito disfarçado, ou até inconsciente que não nos estimulam a nos alto promover, mas um respeito com a noção de que somos aptos a qualquer coisa, a única coisa que não podemos fazer é falar as cores, quando algumas pessoas não são capazes nem de falar a verdade, acredito que são essas pessoas “normais” que são limitados. Para as ciências biológicas e aerodinâmicas o besouro não voaria, mas, onde quer que você vá, verá um besouro voando. Posso citar vários outros problemas que ainda não são resolvidos pela ciência, se ela pode errar até com quem e o que não pode se expressar imagina com que pode contestar qualquer coisa, devemos lembrar que não somos donos da verdade e ter a humildade de reconhecer todos como iguais.

E hoje, sinto que posso dizer que sou sim diferente, mas não vejo minha diferença como algo negativo, mas como algo positivo, pois qual seria a graça de estar em um mundo em que todos são parecidos? Sou diferente sim, mas não sou inferior e é isso que desejo passar para meus alunos, me tornei professor justamente para fazer diferente e quebrar paradigmas. Não existem limites para algo ser explorado pela educação, ela está presente em tudo e é ela que as mantém e renova.

E, para os educadores e futuros educadores que estão lendo esse texto só peço para que façam diferente e que não sejam passivos nem acomodados, que amem o que fazem, pois se você não é capaz de amar a educação, você não será capaz de fazê-la direito. Reflitam, pensem e repensem seus atos e o que estão fazendo, não fiquem apenas reproduzindo, sejam criativos, façam algo novo, para assim podermos ir mudando aos poucos nosso sistema educacional. Simplesmente eduquem de forma que não criem produtos, mas jovens que possam fazer seu papel no mundo de forma consciente, isso é educação.

Texto de ficção produzido por:

Luan Amoras 

Nathália Dezidério

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